Entrevista

Foco na Miopia na Europa

Entrevista com a Prof.ª Cristina Álvarez Peregrina e o Dr. Miguel Ángel Sánchez-Tena
9 julho 2026 · 10 MIN LEITURA
Prof.ª Cristina Álvarez Peregrina

Cristina Álvarez Peregrina é docente e investigadora na Universidade Complutense de Madrid, onde leciona Optometria Geral, Optometria Pediátrica e Optometria Clínica.

Dr. Miguel Ángel Sánchez-Tena

Miguel Ángel Sánchez-Tena é docente e investigador na Universidade Complutense de Madrid. Leciona Optometria Geral, Optometria Pediátrica e Optometria Clínica, e a sua investigação incide sobre a miopia e a optometria clínica.

A Europa é o segundo continente mais pequeno, com cerca de 50 países e aproximadamente 740 milhões de habitantes. Estende-se do oceano Atlântico, a ocidente, ao oceano Ártico, a norte, e ao mar Mediterrâneo, a sul, e é marcada por uma significativa diversidade cultural e linguística. Convidámos a Prof.ª Cristina Álvarez Peregrina e o Dr. Miguel‑Ángel Sánchez‑Tena, de Madrid, especialistas de referência na investigação da miopia e autores de "Analysing myopia in Europe: A comprehensive meta-analysis" publicado na Graefe's Archive for Clinical and Experimental Ophthalmology em 2026, para discutirem a atual situação da miopia na Europa.

  • Vista do horizonte de Amesterdão

Qual é a razão de ser do vosso artigo? Porque é que o escreveram?

Miguel-Ángel: A miopia é um importante problema de saúde pública, sobretudo na Ásia, mas na Europa os dados são fragmentados e por vezes inconsistentes. Quisemos oferecer aos clínicos uma visão mais clara da prevalência da miopia na Europa, olhando não só para as taxas globais, mas também para as diferenças por idade, região e sexo. Em alguns países, como Espanha, a cicloplegia não é utilizada de forma sistemática, o que dificulta as comparações com países onde a refração cicloplégica é habitual. O nosso objetivo foi reunir estes dados e organizá-los de forma a permitir conclusões mais robustas sobre a prevalência da miopia na Europa.

Cristina: Estudamos a prevalência da miopia em crianças espanholas desde 2016. A dada altura, começámos a questionar-nos se o que observávamos em Espanha refletia a situação noutros países europeus. Isto levou-nos a realizar uma meta-análise europeia para enquadrar os nossos dados espanhóis num contexto mais alargado.

Com base na vossa meta-análise, qual é atualmente a prevalência da miopia e da miopia elevada na Europa?

Cristina: Verificámos que cerca de um em cada quatro europeus tem miopia, um valor muito semelhante às estimativas anteriores de Holden e colegas. Assim, a miopia é claramente um problema europeu, e não apenas asiático. Não observámos diferenças relevantes entre homens e mulheres, nem entre áreas rurais e urbanas, embora os dados relativos às áreas rurais fossem limitados. Os estudos que utilizaram cicloplegia registaram uma prevalência inferior à dos que não a utilizaram, algo importante a ter em conta ao comparar estudos ao longo do tempo e entre países. As diferenças regionais dentro da Europa foram pequenas e refletem provavelmente heterogeneidade metodológica, mais do que verdadeiras diferenças de estilo de vida.

Miguel-Ángel: Em números, a prevalência da miopia é de cerca de 25% e a da miopia elevada de cerca de 3%. A prevalência aumenta com a idade: cerca de 3% a 9% em crianças mais novas, 15% a 25% em crianças em idade escolar e cerca de 33% a 35% em adultos. É por isso que dizemos sempre: cada faixa etária importa.

  • 25%

    A prevalência da miopia na Europa é de cerca de 25%.

  • 3%

    A prevalência da miopia elevada na Europa é de cerca de 3%.

Apesar desta prevalência relativamente elevada, porque é que a miopia continua a ser vista como um problema menor na Europa?

Cristina: Muitos continuam a ver a miopia como um problema essencialmente asiático. Os pais apercebem-se frequentemente de que os filhos veem mal, mas não sabem que a miopia aumenta o risco de futuras doenças oculares. Precisamos de políticas de saúde pública mais fortes e de uma comunicação mais clara com as autoridades de saúde, os educadores e os decisores políticos, para que compreendam a dimensão do problema. A miopia elevada ainda é relativamente rara, pelo que pode não parecer urgente — mas se a miopia em geral continuar a aumentar, o peso da miopia elevada crescerá inevitavelmente. Devemos agir agora, não esperar.

 

Ao comparar estudos anteriores com dados mais recentes, como é que a prevalência da miopia mudou ao longo do tempo em Espanha, especificamente?

Cristina: Em crianças com cerca de 5 a 7 anos, a prevalência aumentou desde 2016 até ao início da pandemia de COVID. Após a COVID, esta tendência crescente pareceu estabilizar. Espanha teve confinamentos muito rigorosos; as crianças não puderam sair de casa durante cerca de 12 semanas. Depois, muitos pais aumentaram conscientemente o tempo que os filhos passavam ao ar livre, o que acreditamos ter ajudado a estabilizar a prevalência. Desde 2020, a prevalência neste grupo etário manteve-se em cerca de 20% nos nossos dados. Em contraste, noutras regiões da Europa, a prevalência continuou a aumentar, provavelmente porque as restrições foram menos rigorosas e houve menos alterações nos hábitos ao ar livre depois disso.

Numa ótica, uma técnica de óptica está a realizar um rastreio a um menino; o menino está sentado enquanto a técnica de óptica trabalha, com a mãe visível ao fundo.

Que ações concretas devem as autoridades de saúde e os governos priorizar para enfrentar o peso da miopia?

Miguel-Ángel: A deteção precoce é fundamental. Os programas de rastreio em contexto escolar são uma ferramenta essencial, pois permitem detetar a miopia precocemente, numa fase em que ainda temos maiores possibilidades de retardar a sua progressão. As intervenções de controlo da miopia podem ser dispendiosas, pelo que o apoio financeiro dos sistemas de saúde ajudaria mais famílias a aceder a elas. Precisamos também de mensagens simples e consistentes para os pais: mais tempo ao ar livre e limites razoáveis no uso de dispositivos digitais. Estas medidas básicas podem influenciar o início e a progressão da miopia.

 

Quais são as principais consequências económicas do aumento da miopia e da miopia elevada?

Miguel-Ángel: O peso económico torna-se significativo com a miopia elevada, que aumenta o risco de complicações retinianas graves e de outras condições que exigem tratamentos complexos e dispendiosos. Isto afeta não só os pacientes, mas também os sistemas de saúde e a sociedade. É por isso que a deteção precoce e os esforços para retardar a progressão são tão importantes: podem ajudar a evitar a progressão para miopia elevada e reduzir os custos a longo prazo.

O peso económico torna-se significativo com a miopia elevada, que aumenta o risco de complicações retinianas graves e de outras condições que exigem tratamentos complexos e dispendiosos. Isto afeta não só os doentes, mas também os sistemas de saúde e a sociedade.

Dr. Miguel-Ángel Sánchez-Tena
duas crianças a correr ao ar livre

Que resultados vos surpreenderam mais nos dados europeus e o que significam para o rastreio?

Cristina: Ficámos surpreendidos com o facto de a prevalência ser tão elevada, cerca de 25%. E com a pequena diferença entre as refrações cicloplégicas e não cicloplégicas. Esperávamos uma diferença maior. Isto sugere que talvez seja necessário repensar a nossa abordagem à cicloplegia em rastreios de grande escala. A cicloplegia está limitada para os optometristas em muitos países, é incómoda para as crianças e difícil de implementar nas escolas. Os nossos resultados indicam que o rastreio escolar sem cicloplegia ainda pode ser valioso. As crianças identificadas como estando em risco podem depois ser referenciadas para oftalmologistas para avaliação cicloplégica.

Miguel-Ángel: É preferível ter um programa de rastreio consistente sem cicloplegia do que não ter rastreio nenhum. Métodos consistentes continuam a permitir-nos monitorizar tendências ao longo do tempo.

Quais são as vossas próximas prioridades de investigação sobre a prevalência da miopia, em Espanha e na Europa?

Cristina: Vamos continuar o nosso trabalho em Espanha e estamos também envolvidos na European Myopia Network. Em conjunto com colegas de vários países, estamos a trabalhar em projetos para melhor compreender a miopia em toda a Europa. A rede tem comissões dedicadas à comunicação, à educação, à ciência e ao patrocínio. O nosso objetivo é harmonizar a forma como comunicamos e como medimos e gerimos a miopia na Europa.

Se tivessem de escolher uma mensagem-chave do vosso artigo mais recente, qual seria?

Cristina: Sensibilização. Muitas pessoas na Europa ainda subestimam a dimensão do problema da miopia. Precisamos de agir agora — sobretudo nas escolas e ao nível governamental — enquanto ainda há oportunidade de prevenir um peso futuro muito maior. A nossa meta-análise também evidencia uma grande variabilidade metodológica entre os 28 estudos incluídos. Métodos mais padronizados são essenciais se quisermos fazer comparações precisas entre regiões e entre a Europa e a Ásia. Até lá, devemos interpretar os dados existentes com cuidado e ter sempre em conta a forma como os estudos foram conduzidos.

 

Muitas pessoas na Europa ainda subestimam a dimensão do problema da miopia. Precisamos de agir agora — sobretudo nas escolas e ao nível governamental — enquanto ainda há oportunidade de prevenir um peso futuro muito maior.

Prof.ª Cristina Álvarez Peregrina

Resumo - Miopia na Europa

A miopia é cada vez mais reconhecida como um desafio de saúde pública na Europa. Nesta entrevista, a Prof.ª Cristina Álvarez Peregrina e o Dr. Miguel‑Ángel Sánchez‑Tena apresentam os principais resultados de uma nova meta-análise europeia, que mostra que cerca de 1 em cada 4 europeus tem miopia (cerca de 3% com miopia elevada). Discutem tendências específicas por idade, padrões regionais e o impacto da refração cicloplégica versus não cicloplégica, e explicam por que motivo a deteção precoce através do rastreio em contexto escolar, mensagens simples de prevenção (mais tempo ao ar livre, uso equilibrado de dispositivos digitais) e o apoio financeiro ao controlo da miopia são fundamentais para limitar futuros encargos de saúde e económicos. Os especialistas destacam ainda resultados de Espanha, o papel da European Myopia Network e a necessidade de métodos padronizados para comparar melhor os dados sobre miopia na Europa e com a Ásia.

 

Martinez-Perez C, Alvarez-Peregrina C, Villa-Collar C, Sánchez-Tena MÁ. Analysing myopia in Europe: A comprehensive meta-analysis. Graefes Arch Clin Exp Ophthalmol. 2026 Mar;264(3):647-665. doi: 10.1007/s00417-025-07078-z. Epub 2025 Dec 20. Erratum in: Graefes Arch Clin Exp Ophthalmol. 2026 Apr 8. doi: 10.1007/s00417-026-07236-x. PMID: 41420781.

Mais informações específicas por país sobre a prevalência da miopia


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